Artigo de opinião

Escala 5x2: estamos discutindo a jornada de trabalho ou ignorando a transformação do trabalho?

Helvécio Siqueira Braga
Presidente do SindBetim
Sindicato Patronal do Comércio de Betim e região

Capa do artigo sobre escala 5x2, de Helvécio Siqueira Braga, presidente do SindBetim.

A discussão sobre a escala 5x2 é muito mais complexa do que parece. Reduzir esse debate à simples defesa de mais dias de descanso ou à resistência das empresas a mudanças na jornada é ignorar transformações profundas que já estão acontecendo no mercado de trabalho.

A redução da jornada merece, sim, ser discutida. Especialmente no comércio, um setor com características próprias, diferentes horários de funcionamento e necessidades operacionais que variam conforme a atividade e o porte de cada empresa.

O que merece ser questionado é a forma como esse debate vem sendo conduzido. Uma mudança dessa dimensão precisa considerar a realidade de quem emprega e de quem trabalha, ouvindo as partes envolvidas e avaliando suas consequências econômicas e sociais.

Mas será que estamos discutindo o verdadeiro problema?

Na minha avaliação, estamos diante de uma transformação muito mais ampla: uma mudança no comportamento de consumo, nas relações de trabalho e, principalmente, na maneira como as pessoas desejam gerar renda e administrar o próprio tempo.

A nova relação com o trabalho

Uma parcela dos trabalhadores, especialmente entre os mais jovens, vem demonstrando interesse crescente por autonomia, flexibilidade e independência. Nem todos desejam seguir o modelo tradicional de emprego, com horários fixos, subordinação e uma rotina predeterminada.

Essa mudança não pode ser explicada por um único fator. Remuneração, condições de trabalho, perspectivas profissionais, qualidade de vida e autonomia influenciam as escolhas de cada pessoa.

A tecnologia, por sua vez, ampliou consideravelmente as alternativas disponíveis.

Plataformas como Uber e iFood, o comércio eletrônico, os programas de afiliados e as ferramentas de inteligência artificial permitem que pessoas desenvolvam atividades econômicas fora dos modelos tradicionais de contratação.

É evidente que essas alternativas também apresentam riscos. Nem sempre oferecem renda estável, férias remuneradas, FGTS ou a mesma proteção social assegurada pelo emprego formal. Ainda assim, para determinados profissionais, a liberdade de organizar a própria rotina e a possibilidade de obter ganhos variáveis tornam essas atividades atraentes.

É preciso compreender essa realidade para entender por que algumas empresas enfrentam dificuldades para preencher suas vagas, mesmo quando oferecem salários e benefícios competitivos.

Exemplos que merecem reflexão

Conheço situações que ilustram essa transformação.

Um profissional da área de funilaria e lanternagem, por exemplo, pode receber uma proposta de remuneração de R$ 6 mil, acrescida dos benefícios previstos na CLT, assistência médica e vale-refeição, e ainda assim ser difícil de contratar.

O exemplo levanta uma pergunta importante: será que a remuneração, isoladamente, é suficiente para explicar as dificuldades de contratação?

Também conheço o caso de um comerciante, proprietário de uma loja de bolsas, que passou a trabalhar como motorista de aplicativo como renda adicional.

Em outra situação, um jovem de 19 anos deixou o emprego em uma loja do segmento pet durante o período de experiência. Descobriu que poderia vender produtos pela internet, mediante comissões, e passou a buscar oportunidades semelhantes em outras empresas. Segundo o relato, hoje trabalha de casa e obtém uma renda mensal média de aproximadamente R$ 8 mil.

Há ainda o caso de uma advogada que começou indicando produtos pela internet para ajudar os convidados de uma amiga a comprar presentes de casamento. Na ocasião, recebeu R$ 560 em comissões. Posteriormente, ampliou a atividade, automatizou parte do processo e, segundo o relato, passou a faturar em torno de R$ 30 mil mensais com a comercialização de produtos de terceiros, deixando a advocacia.

Esses casos não significam que todos conseguirão resultados semelhantes, nem que o trabalho autônomo seja necessariamente melhor do que o emprego formal. São exemplos de como novas oportunidades podem alterar as decisões profissionais e as expectativas de renda.

O ponto central é que o mercado de trabalho está mudando, e as empresas precisam compreender essa mudança.

A automação pode acelerar esse processo

Diante das dificuldades de contratação, dos custos operacionais e da necessidade de manter a competitividade, é razoável esperar que muitas empresas avaliem investimentos crescentes em automação, inteligência artificial, autoatendimento e sistemas capazes de executar tarefas antes realizadas exclusivamente por pessoas.

No comércio, essas mudanças já encontram aplicações em áreas como atendimento, controle de estoque, processamento de pedidos, logística e relacionamento com clientes.

Se as empresas enfrentarem dificuldades cada vez maiores para compor suas equipes ou precisarem reorganizar suas operações diante de mudanças na jornada, algumas poderão acelerar investimentos tecnológicos e reduzir a necessidade de mão de obra em determinadas funções.

Isso não significa que todos os empregos desaparecerão. Novas atividades também poderão surgir. Entretanto, é fundamental reconhecer que a tecnologia tende a modificar o perfil das ocupações e as competências exigidas dos trabalhadores.

O grande risco é discutirmos a jornada de trabalho de hoje sem considerar o mercado de trabalho que teremos amanhã.

E qual deve ser o papel do comércio e dos sindicatos?

Não se trata de ser contra a redução da jornada, tampouco de desconsiderar a importância do descanso, da convivência familiar e da qualidade de vida dos trabalhadores.

Trata-se de reconhecer que empresas e trabalhadores precisam encontrar soluções compatíveis com uma realidade econômica e tecnológica em transformação.

Uma regra uniforme pode produzir resultados diferentes em uma grande rede varejista, em um supermercado, em uma farmácia ou em uma pequena loja familiar. Por isso, o debate precisa considerar as particularidades de cada atividade.

Uma alternativa é ampliar o espaço para a negociação coletiva e para modelos de contratação e jornadas mais diversificados, observados os limites legais e os direitos dos trabalhadores.

Jornadas de 24, 30, 36 ou 40 horas semanais, escalas como 5x2 e, quando viáveis e juridicamente admitidas, 4x3 podem integrar essa discussão. O objetivo deve ser encontrar combinações que permitam às empresas manter suas operações e, ao mesmo tempo, ofereçam aos trabalhadores mais possibilidades de conciliar emprego, estudo, vida familiar e outras atividades econômicas.

Os sindicatos também precisam evoluir. Sua responsabilidade não é apenas discutir salários e jornadas, mas compreender as mudanças do mercado, preparar empresas e trabalhadores e construir soluções que preservem a competitividade, a geração de empregos e a proteção social.

O futuro não espera o fim do debate

A discussão sobre a escala 5x2 é legítima e necessária. Mas precisamos ir além da pergunta sobre quantos dias as pessoas devem trabalhar.

Precisamos discutir como as pessoas querem trabalhar, como as empresas conseguirão contratar, como a tecnologia transformará as ocupações e como manteremos empregos formais atrativos em um ambiente no qual novas formas de geração de renda ganham espaço.

Se ignorarmos essas mudanças, corremos o risco de concentrar nossos esforços em regras para o mercado de trabalho do passado, enquanto a economia se reorganiza diante dos nossos olhos.

O desafio não é simplesmente trabalhar menos ou trabalhar mais. É encontrar formas sustentáveis de trabalhar, produzir, gerar renda e oferecer qualidade de vida, conciliando os interesses legítimos de quem emprega e de quem trabalha.

A escala 5x2 deve fazer parte dessa discussão. Mas não pode ser a discussão inteira.

O futuro do trabalho exige menos simplificação, mais diálogo e, sobretudo, a capacidade de antecipar mudanças que já estão em curso.

Helvécio Siqueira Braga.

Presidente do Sindbetim.Sindicato Patronal do Comércio de Betim e região.

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